quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O relato que cheguei a pensar não voltar a fazer

Hoje vi a morte à minha frente. No local onde menos esperava. Via-a num sítio que frequento regularmente e onde me divirto sempre. Até hoje...
Saí de 24h de trabalho, tomei o pequeno almoço e tratei de uns assuntos pendentes. A vontade de voltar ao mar era imensa. Há vários dias que, ou por afazeres profissionais ou por causa do mau tempo, não podia pescar no mar. Já lhe devia uma visita.
Companhia, desta feita, foi impossível arranjar.
Mas o impulso era mais forte que a razão. Não gosto e sei que não devo ir pescar sozinho, muito menos para o local em questão. Já o tinha feito antes, em circunstâncias similares: depois de longos dias de trabalho, em dias que os meus amigos não puderam acompanhar-me, depois de "caidelas" do mar... Mas hoje, infelizmente, foi muito diferente!
Cheguei à praia nas últimas horas da vazante, com as pedras onde almejava pescar já descobertas, embora com bastante água e uma distância considerável a separar-me delas. Fiz uns lançamentos ainda da areia para estrear a minha patchinko II, e fui avançando em direcção ao meu objectivo. As previsões de ondas de 0,4-0,5m estavam claramente erradas, por defeito. Mesmo assim, conhecendo cada pedrinha daquele spot, resolvi prosseguir na caminhada. Fi-lo sem grandes precalços até à parte habitualmente mais complicada - um caneiro com cerca de 5-6m que é necessário atravessar a nado. Hesitei... mas resolvi passar. Com a cana e a bolsa das amostras na mão esquerda fora de água, enquanto nadava de costas e a mão direita servia de remo, lá fui eu. As ondas batiam nas pedras e a corrente que resultava da escoa tornava cada vez mais difícil a minha aproximação. Sozinho, sem um amigo que me ajudasse, o cansaço começou a fazer-se sentir. Senti-me ofegante e comecei a ficar atrapalhado pois os meus movimentos natatórios estavam a revelar-se insuficientes para vencer a força da água. Já algo aflito, naquele impasse e cada vez mais fatigado, resolvi submergir a cana, carreto e o porta-amostras (algo que tentava evitar) e utilizar o braço até então fora de água. Foi o suficiente para vencer os últimos metros de água e chegar finalmente à rocha desejada. Sentei-me exausto e assustado, pois tal nunca me tinha acontecido, muito menos só! Descansei uns 10 minutos sem me mexer um milímetro, pois estava relativamente protegido das ondas.
Em seguida, nova exitação: "já que aqui estou, faço 2 ou 3 lançamentos" ou "já chega de burrice, vou mas é para a praia". Voltei a ser insensato. Coloquei a bolsa das amostras encaixada numa frincha entre 2 rochas (onde já é habitual deixa-la enquanto pesco) e quando olho de seguida para o mar, já uma onda com cerca de 3 metros está a segundos de rebentar no local onde me encontrava. Só tive tempo de me agachar e agarrar o melhor que pude. O impacto foi violento, mas consegui manter a posição. Encharcado da cabeça aos pés, reparo que a bolsa que acabava de tentar prender flutuava a cerca de 4 metros de distância e afastava-se a uma velocidade considerável. Naqueles breves instantes penso no conteúdo da bolsa: cerca de 13 amostras, clipes, fluocarbono, máquina fotográfica à prova de água e chave do carro envolta em plástico. Apesar de ter ali muito dinheiro investido, o que mais me preocupou foi a chave do carro, sem a qual não poderia ir para casa, muito menos contactar alguém que me viesse buscar e me permitisse chegar a horas ao emprego (entrava de novo ao trabalho às 14:30h).
Sem que me tivesse recomposto do esforço anterior e nervoso pela sucessão de sustos, mergulhei na tentativa de resgatar o porta-amostras. Tal como o objecto recém-perdido, fui rapidamente levado na corrente, como se de uma pena me tratasse. Com as últimas forças que tinha, nadei na direcção da bolsa e consegui agarra-la. Mas se até aqui tinha sido tudo muito mau, a partir deste momento não encontro adjectivos capazes de qualificar o que senti. No limite da minha capacidade física, ofegante e já sem qualquer clarividência, vivi os piores 15/20 minutos de que tenho memória. Muita coisa me passou pela cabeça, inclusivamente que esta história nunca chegasse a ser contada na primeira pessoa. Sem forças para lutar contra a corrente, deitei-me de costas a flutuar, engoli muita água, dei muitas cambalhotas nas ondas (felizmente nessas cambalhotas só bati em rochas com as pernas) e tentei ter calma. Fui buscar forças onde julguei que já não existissem e consegui lenta e pausadamente, sem contrariar a corrente mas servindo-me dela, ir-me aproximando da costa. Quando o fiz, completamente desgastado, física e mentalmente, já algumas pessoas que me viram ao longe atrapalhado, me esperavam para saber se me tinha magoado e se precisava que chamassem alguma ambulância. Felizmente a história tem um final feliz, embora pudesse ter sido trágico.
Faço este relato, que cheguei a pensar não voltar a fazer, não para me avivar estas memórias no futuro, pois estou certo que nunca as apagarei, mas para alertar acerca destes perigos a quem tem a pesca como hobbie . Não desejo a ninguém o que passei hoje! Não queiram aprender com erros vossos por favor! Aprendam com o meu!

25 comentários:

  1. De: José Rodrigues,


    ainda bem que tudo acabou bem, e que sirva de exemplo para todos !

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  2. Não imagino o que deves ter passado, mas ainda bem que tas aqui connosco, são e salvo!!

    Beijinhos grandes

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  3. Afinal foi mais atribulado do que pensava :( Realmente há coisas que jamais se devem fazer desacompanhado, nomeadamente a pesca (nesses moldes), caça, TT, BTT, entre outros...
    Se quiseres combinamos, eu levo a caçadeira e vou contigo aos Robálos e tu trazes a cana e vens comigo aos Coelhos e às Perdizes! :P Hehehehe
    Grande abraço primo!
    Ricardo Lourenço

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  4. Estou deveras emocionado com este teu relato.
    Obrigado amigo por ainda aqui estares, por teres tido força e a capacidade de não batalhares contra a corrente. Conheço muito bem este tipo de situações devido a um desporto que me deu a formação necessária para gerir este tipo cenários.
    Obrigado pela humildade desta partilha.

    Só penso em te dar um abraço, como tantos que já te dei.
    Estou quase em lágrimas...

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  5. Fonix amigo,o teu relato deu para perceber bem o teu momento de aflição.
    Todo o cuidado é pouco e só aprendemos com os nossos erros,que te sirva de exemplo a ti e a todos nós pescadores que temos este lindo hobbie que é a pesca.
    Obrigado pelo teu alerta amigo.
    Urubu

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  6. Zé Pedro,

    Que GRANDE susto! Ainda bem que tudo terminou com final feliz.

    O mar é pouco tolerante a este tipo de erros! E por vezes nós facilitamos um pouco.

    Serve também de aviso p esta época que se avizinha + rigorosa.

    Grande abraço,
    Pedro Neves

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  7. Meu amigo, que susto grande apanhaste....imagino a tua aflição. Mas graças a Deus tudo acabou bem. Estas experiências, apesar de radicais, permitem-nos ver tudo de outra maneira e servem-nos de lições de vida.... Beijos grandes
    Cecília

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  8. Nem penses em fazer outra igual. Mas o importante é que continuas connosco...

    um beijinho enorme

    Mónica

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  9. Olá Zé Pedro...
    Realmente foi um dia para nunca mais esqueceres,depois de telefónicamente me teres contado tudo ainda mais comovido fiquei ao ler estas tuas palavras.Realmente por vezes arriscamos demais,mas mesmo acompanhado é muito complicado,temos que aprender a não fazer tais coisas,espero que estejas bem e que tenha sido uma lição para todos nós...nesse dia eu era mesmo a tua companhia mais devido ao meu aniversário não pude estar presente,o mais certo era um banho a dois...
    Um grande abraço e vamos lá a tomar mais cuidado!!!

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  10. Amigo José Pedro, felizmente correu tudo bem, certamente vai servir de aviso a todos nós, um peixe não vale uma vida e quando estamos sozinhos não vale a pena arriscar travessias para pedras ilhadas principalmente quando não temos a certeza do estado do mar.
    Fico feliz que não passou de um grande susto, certamente que daqui para a frente será mais prudente na hora de arriscar.

    Um grande abraço
    Hugo Marques

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  11. Não existem comentários possíveis para o que escreveste, a sério, o peixe não vale o risco que possamos correr e tu mais que ninguém já sabia disso melhor que ninguém... mas não critico pois a pesca têm destas coisas, é um vicio, e todos os vícios são bons quando os dominamos se não dominares o vicio e se não fores capaz de o vencer sozinho pede ajuda....

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  12. Sei o que é esse chamamento do mar. Durante vários anos fiz caça submarina e a maior parte das vezes sozinho. Sustos, apanhei dois.
    Agora, mais velho e com mais responsabilidades e com herdeiro, estou mais consciente. Mas ele, sempre ele, continua a chamar-me dia e noite e enquanto não nos vemos continuamos agitados.
    Felizmente, a sua história teve um final feliz para nós. Para si porque vai continuar a fazer o que mais gosta e para mim que vou poder continuar a ler as suas aventuras e desventuras de pesca.

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  13. Grande relato. Arrepiante.
    Percebes melhor o que senti naquele dia em que atravessei o canal convosco.. a minha sorte foi encontar um banco de areia e assim ter pé par atravessar em segurança (tb já estava esgotado).
    Tem cuidado amigo, que ainda temos mutas pescarias e outras coisas mais pra fazer juntos.
    Um forte abraço.
    Sérgio Silva

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  14. AMIGO, foi de lágrima no olho que li atentamente as palavras que escreves-te.

    Só tenho a agradeçer a Deus por te ter dado forças e a mão.

    POr muito bom que o pesqueiro seja....já te tinha dito "prá li não vou".

    Forte abraço (agora, pq quando estiver contigo acho que te vou partir as costelas)

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  15. Ainda bem que tudo acabou bem!
    O mar não tem amigos e quando menos esperamos as tragédias acontecem...
    Felizmente está são e salvo!
    E já agora parabéns pela humildade de relatar o que aconteceu!
    Um abraço
    Luís Tomás

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  16. Muito obrigadoa todos pelas vossas palavras.

    Este relato tem por único objectivo ALERTAR para que não comentam os mesmos erros que cometi - pescar sozinho, arriscar, ser insensato.

    Podem estar certos que tão cedo não se vêem livres de mim! Pelo menos numa tragédia a pescar! Isto serviu-me de lição!
    O chamamento do mar mantem-se a vontade de lá ir também, mas com outra sensatez!

    Curtam o hobbie, sem riscos! ;)

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  17. Ainda estou arrepiado , mas ao contrário de todo o Povo, e como sou muito mais velho que tu, antes do grande abraço que te vou dar, vais levar é um grande "cachaço" de repreensão. Feliz por ter-te cá amigão. Cabé

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  18. BOA TARDE.
    DEPOIS DE TODOS ESTES COMENTÁRIOS ACHO QUE POUCO MAIS POSSO DIZER SENÃO QUE JÁ VIVI UMA SITUAÇÃO IDENTICA Á TUA E VI O FILME DA MINHA VIDA TODA A PASSAR EM FRACÇÃO DE SEGUNDOS.BEM COMO TAMBEM VI COLEGAS MEUS QUASE IAM MORRENDO( CONVIDO-TE A VER O MEU ESPAÇO WWW.SPINNINGNONORTE.BLOGSPOT.COM) Lè OS RELATOS E REALMENTE PODES VER COMO É BOM ESTAR ACOMPANHADO À PESCA. CONVIDO-TE PUBLICAMENTE SE QUISERES VIR ATÉ À ZONA DA FIGUEIRA DA FOZ SPINNAR PODEMOS NOS ENCONTRAR QUEM SABE. ATÉ LÁ UM GRANDE ABRAÇO E NÃO TE ESQUESSAS DE PASSAR PELO MEU BLOG E LER A NOTICIA QUE PUBLIQUEI. É COMOVENTE... 1 ABRAÇO
    Miguel Pinho

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  19. Pois com o mar todo o cuidado é sempre pouco, e muito mais ainda na pesca ilhada, tem de haver um trabalho de casa muito bem elaborado, ter profundo conhecimento do local para onde se vai e mesmo assim não é suficiente, como foi o caso, in loco há que ler as condições mar / maré durante um certo tempo, ver os sets e mesmo assim não é 100% eficiente, Por exemplo no video que colocaram aqui o da pesca radical, nesse dia não era seguro lá estarem e viu-se pelas ondas que vareram o local...
    Como tu o dizes felizmente que fizeste este relato, que sirva de exemplo não só para ti, mas para todos nós!!!

    Ainda bem k nada de grave te aconteceu, e que tiveste uma grande coragem para o relatares aqui...



    Ab e boas pescas sempre em segurança

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  20. Pê,

    Tenho pensado muito em vc nos ultimos dias...Andava sem notícias...mas nunca esperava ler isso.
    Que bom que tudo terminou bem!!
    Cuide-se querido!!
    bjs

    Lisa

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  21. Zé como já foi dito todo o cuidado é pouco.
    A grande inimiga que temos, é termos a sensação que conhecemos o local e que nada nos pode acontecer depois de muitas jornadas.

    De certo já irás ver esse spot, e outros, com outros olhos.
    Como sabes, apesar de grandes pesqueiros que temos raramente vou para o "calhau" sabendo antemão que as probabilidades de ferrar peixe não são as mesmas, mas a sensação de pés em terra é outra coisa. Deverá ser por algum motivo, não porque tive grandes sustos, como o teu, mas foi um acomular deles....

    Outro conselho que te posso dar é que o material é substituivel TU NÃO!

    Abraço
    Cascão

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  22. Boas,

    tudo corre bem quando acaba bem...

    Ainda bem que assim foi.

    Grande abr, Matos

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  23. estive um periodo "meio" ausente.
    agora que leio o teu relato nem sei o que dizer...

    ainda bem que terminou tudo bem...

    1 abraço

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  24. Finalmente pude vir aqui ver o teu relato (a inês teve uma noite porreira..) e só te posso dizer que me apetece dar-te um valente biquiero no rabo!
    Meu grande animal, se te acontecer alguma coisa na pesca podes ter a certeza que ainda vais levar por cima!
    Sabes que gosto de ti como se fosses meu irmão e no dia do episódio no hospital nem me apercebi da gravidade da situação.
    Acho que fizeste muito bem em partilhar esta situação, porque se bem te conheço desta vez vais aprender e não votar a repetir!
    Urubas vê lá se colocas uns olhos neste gajo porque também és parecido com ele e tens um projecto fantástico a caminho, por isso juizinho!
    Grande abraço para o meu "irmão" que faz hoje uma semana teve um desempenho espectacular no bloco de partos ao ajudar a nascer a sua linda sobrinha!
    Em vez de ires pescar sozinho podes vir aqui a casa pegar nela e desfrutar de um dos maiores prazeres da vida!
    Fica bem menkie!
    Abraço para todos

    Xinante Atmosférico (pai babado)!!!!!!

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  25. Alô Jose Pedro!
    Nesses casos nunca devemos entrar em panico, sei k é facil falar, pois so quem o vive sabe como é! Tenho muitos anos de esperiencia em Bodyboard e tenho plena consciencia da força do mar, o mais perigoso nesse caso são as pedras e as rochas pois elas é k nos podem magoar...
    Se gostas de fazer essas pescas mais hardcore, e se tiveres oportunidade pratica nataçao nas piscinas, vais ver k te sentes mais a vontade com o mar e a resistencia é outra passado 3 semanas...
    Saude

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